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Saúde emocional19/10/2026· SUEDEM ALCENO MEDEIROS

Excesso de telas e dificuldade de concentração: o que acontece com a aprendizagem?

O uso frequente de celulares, redes sociais e vídeos pode interferir na concentração, na organização dos estudos e nos hábitos de aprendizagem, especialmente quando provoca interrupções constantes ou prejudica o sono. Neste artigo, você vai compreender a relação entre atenção, memória e tecnologia e conhecer estratégias da Psicopedagogia e da Neuropsicopedagogia para favorecer o foco, a autonomia e uma relação mais equilibrada com os dispositivos digitais.

Excesso de telas e dificuldade de concentração: o que acontece com a aprendizagem?

Excesso de telas e dificuldade de concentração: o que acontece com a aprendizagem?

Você começa a estudar, mas uma notificação aparece no celular. Decide verificar a mensagem por alguns segundos e, quando percebe, já está assistindo a um vídeo, respondendo a outra pessoa ou navegando pelas redes sociais. Ao retornar à atividade, precisa reler o mesmo parágrafo porque perdeu o fio do raciocínio.

Essa situação faz parte da rotina de muitas crianças, adolescentes e adultos. Os dispositivos digitais oferecem acesso à informação, oportunidades de comunicação e recursos que podem enriquecer a aprendizagem. Entretanto, quando seu uso ocupa grande parte do tempo, provoca interrupções frequentes ou substitui atividades importantes, podem surgir dificuldades para manter a atenção e organizar os estudos.

A questão não é simplesmente utilizar ou não utilizar telas. É compreender como, quando, por quanto tempo e com qual finalidade a tecnologia está sendo utilizada.

Sob a perspectiva da Psicopedagogia e da Neuropsicopedagogia, esse tema merece atenção porque aprender exige mais do que receber informações. É necessário selecionar estímulos, compreender conteúdos, estabelecer relações, recuperar conhecimentos e praticar o que foi aprendido.

Como o excesso de estímulos digitais pode interferir na concentração?

A atenção permite selecionar informações relevantes e direcionar os recursos cognitivos para uma atividade. Ela é fundamental para acompanhar uma explicação, compreender um texto, resolver problemas e aprender novos conteúdos.

Quando uma pessoa estuda enquanto alterna continuamente entre mensagens, vídeos, jogos e redes sociais, precisa interromper e retomar a atividade principal diversas vezes.

Essa alternância pode aumentar a sensação de esforço mental, dificultar a continuidade do raciocínio e reduzir o tempo dedicado ao processamento de cada conteúdo.

Imagine um estudante que tenta resolver exercícios enquanto mantém o celular ao lado, recebendo notificações. Mesmo quando não responde a todas elas, a expectativa de uma nova mensagem pode competir com sua atenção.

Isso não significa que o cérebro seja incapaz de aprender utilizando tecnologia. Significa que o contexto de uso importa. Um ambiente digital organizado, com uma finalidade clara e poucas interrupções, é diferente de uma situação em que a pessoa alterna constantemente entre estímulos concorrentes.

Uma revisão sistemática publicada em 2022 encontrou associações entre o tempo de exposição às telas e medidas de atenção em crianças. Entretanto, os estudos apresentam limitações e diferenças metodológicas, de modo que esses resultados não permitem concluir que o uso de telas cause, isoladamente, dificuldades de atenção em todas as pessoas.

O que acontece com a memória e a aprendizagem?

A aprendizagem envolve diferentes processos cognitivos, incluindo atenção, memória, compreensão, raciocínio e recuperação das informações.

Para aprender um conteúdo, não basta entrar em contato com ele. É importante dedicar atenção suficiente, compreender seu significado, relacioná-lo aos conhecimentos anteriores e revisá-lo quando necessário.

Quando o estudo é interrompido repetidamente, a pessoa pode ter dificuldade para acompanhar a sequência de ideias e estabelecer relações entre as informações.

Por exemplo, um estudante pode passar uma hora diante dos livros e sentir que estudou bastante, mas perceber que reteve pouco do conteúdo. Isso pode acontecer quando grande parte desse período foi ocupada por distrações, mudanças frequentes de atividade ou leitura sem revisão e compreensão efetiva.

É importante diferenciar tempo de exposição e aprendizagem efetiva. Permanecer muito tempo diante de uma tela não garante que o conteúdo tenha sido compreendido ou consolidado.

Algumas estratégias, como explicar o conteúdo com as próprias palavras, responder a perguntas sem consultar o material e revisar as informações em intervalos planejados, podem favorecer uma participação mais ativa no processo de aprendizagem.

Telas e funções executivas: por que organizar os estudos pode ficar mais difícil?

As funções executivas participam do planejamento, da organização, do controle da atenção, da memória de trabalho e do acompanhamento de objetivos.

Essas habilidades ajudam a decidir o que fazer primeiro, manter informações relevantes durante uma tarefa, resistir a distrações e modificar estratégias quando algo não funciona.

No ambiente digital, essas capacidades podem ser exigidas com frequência. Uma pessoa que recebe mensagens continuamente precisa decidir se interrompe o que está fazendo, se responde depois ou se continua concentrada na atividade principal.

Quando esse padrão de interrupções se torna habitual, a organização da rotina pode ficar mais difícil, especialmente quando a pessoa ainda está desenvolvendo estratégias de autorregulação.

Uma revisão sistemática publicada em 2025 examinou pesquisas sobre exposição às tecnologias digitais e funções executivas em crianças e adolescentes. Os resultados apontaram associações desfavoráveis em parte dos estudos, particularmente em aspectos como atenção, memória de trabalho e controle inibitório. Entretanto, os resultados não foram uniformes, e fatores como conteúdo utilizado, contexto familiar, sono e mediação dos adultos também precisam ser considerados.

Portanto, não é adequado afirmar que o uso de telas provoca necessariamente alterações nas funções executivas. O mais responsável é observar os hábitos, as condições de uso e os efeitos que aparecem na rotina de cada pessoa.

Como o uso de telas pode afetar crianças e adolescentes?

A infância e a adolescência são períodos importantes para o desenvolvimento cognitivo, emocional, social e motor. Nesses períodos, as experiências cotidianas contribuem para a construção de habilidades e hábitos.

O uso de recursos digitais pode oferecer oportunidades de aprendizagem, criatividade e interação. Jogos educativos, livros digitais, vídeos explicativos e atividades interativas podem complementar o trabalho pedagógico quando utilizados de maneira adequada.

Entretanto, o uso excessivo ou pouco supervisionado pode ocupar o tempo destinado ao sono, às brincadeiras, à atividade física, à leitura, às conversas presenciais e às experiências práticas.

Essas atividades também são importantes para o desenvolvimento. Brincar, movimentar-se, explorar objetos, ouvir histórias e interagir com outras pessoas oferece oportunidades diferentes daquelas encontradas em uma tela.

A Organização Mundial da Saúde recomenda que crianças pequenas tenham oportunidades adequadas de sono, movimento e brincadeiras, limitando o tempo sedentário diante de telas. Para crianças de 2 anos e de 3 a 4 anos, as recomendações da OMS estabelecem, respectivamente, até uma hora diária de tempo sedentário de tela, sendo menos preferível.

Esses limites são específicos para a primeira infância e não devem ser aplicados automaticamente a todas as idades. Para crianças maiores e adolescentes, é importante considerar as recomendações pertinentes à faixa etária, o tipo de conteúdo, a finalidade do uso e os efeitos sobre a rotina.

Mais importante do que observar apenas o número de horas é avaliar se o uso da tecnologia está prejudicando o sono, a convivência, a aprendizagem ou outras atividades essenciais.

Meu filho não consegue se concentrar: a culpa é do celular?

Nem toda dificuldade de concentração está relacionada às telas.

Uma criança pode apresentar dificuldades para acompanhar atividades escolares por diferentes motivos, como problemas na compreensão dos conteúdos, instruções pouco claras, sono insuficiente, ansiedade, dificuldades de aprendizagem, questões ambientais ou outras condições que merecem investigação.

Da mesma forma, uma criança que se distrai durante uma atividade escolar não deve receber automaticamente um diagnóstico de transtorno de atenção.

O uso de telas é um dos fatores que podem ser considerados na compreensão da rotina, mas não deve ser tratado como explicação única.

Pais e responsáveis podem observar algumas questões:

A criança consegue manter a atenção em atividades de que gosta ou apresenta dificuldades em diferentes situações?

O uso do celular interfere no horário de dormir e na disposição durante o dia?

Há interrupções frequentes durante as tarefas escolares?

A criança compreende as instruções e sabe por onde começar?

Existem dificuldades persistentes de leitura, escrita, compreensão ou organização?

Ela dispõe de tempo para brincar, movimentar-se e conviver com outras crianças?

Essas observações ajudam a compreender o contexto e podem orientar uma conversa com professores e profissionais especializados.

O objetivo não é procurar culpados, mas identificar o que está dificultando a aprendizagem e quais mudanças podem favorecer o desenvolvimento.

Qual é a contribuição da Psicopedagogia?

A Psicopedagogia investiga os processos de aprendizagem e as condições que podem favorecer ou dificultar a construção do conhecimento.

No contexto do uso de telas, a perspectiva psicopedagógica permite analisar como os hábitos digitais, a organização da rotina, as estratégias de estudo e as condições ambientais se relacionam com o desempenho nas atividades de aprendizagem.

O trabalho pode contribuir para:

Compreender as dificuldades de aprendizagem. Investigar em quais atividades surgem os problemas, como a pessoa organiza as informações e quais condições favorecem sua participação.

Desenvolver estratégias de estudo. Utilizar leitura ativa, perguntas sobre o conteúdo, revisão planejada, exercícios e explicações com as próprias palavras.

Organizar o ambiente de aprendizagem. Reduzir interrupções, preparar materiais com antecedência e estabelecer momentos destinados a tarefas específicas.

Fortalecer a autonomia. Ajudar o estudante a reconhecer suas dificuldades, planejar etapas e acompanhar o próprio progresso.

Orientar famílias e educadores. Construir hábitos digitais compatíveis com a idade, as necessidades individuais e os objetivos educacionais.

A proposta não é excluir a tecnologia do processo de aprendizagem, mas favorecer um uso intencional, que complemente outras experiências educativas.

E qual é a contribuição da Neuropsicopedagogia?

A Neuropsicopedagogia considera as relações entre funcionamento cerebral, cognição, comportamento e aprendizagem, adotando uma perspectiva interdisciplinar.

Nesse contexto, as dificuldades de concentração podem ser compreendidas considerando os processos cognitivos envolvidos nas tarefas e as condições em que elas são realizadas.

Uma criança que se perde ao seguir instruções com várias etapas, por exemplo, pode se beneficiar de orientações divididas em partes menores e de recursos visuais para acompanhar a atividade.

Um adolescente que alterna constantemente entre conteúdos digitais pode precisar de estratégias para organizar períodos de estudo e reduzir interrupções. Já um adulto que utiliza o celular durante o trabalho pode experimentar diferentes formas de estruturar o ambiente para manter o foco.

Essas estratégias não pressupõem que exista uma alteração cerebral ou um transtorno. Elas procuram adaptar as condições de aprendizagem às necessidades observadas.

É importante ressaltar que dificuldades de atenção e memória podem ter diferentes origens. A atuação neuropsicopedagógica não substitui avaliações médicas ou psicológicas quando há suspeita de uma condição clínica, nem autoriza automaticamente a realização de diagnósticos fora do âmbito profissional correspondente.

Sete estratégias para utilizar a tecnologia sem prejudicar a aprendizagem

Não é necessário abandonar os dispositivos digitais para desenvolver uma rotina de estudos mais organizada. Algumas mudanças podem ajudar a reduzir distrações e favorecer a concentração.

1. Defina a finalidade do uso.

Antes de abrir um aplicativo, identifique o que precisa fazer: assistir a uma aula, consultar uma fonte, escrever um texto ou responder a uma mensagem. Ter um objetivo claro ajuda a evitar navegações desnecessárias.

2. Desative notificações durante atividades que exigem concentração.

Quando possível, silencie alertas de mensagens, redes sociais e aplicativos que não sejam necessários para a tarefa. Isso reduz as interrupções e a necessidade de decidir continuamente se deve responder a um estímulo.

3. Organize períodos de estudo sem alternância constante.

Reserve um intervalo para uma atividade específica e faça pausas planejadas conforme sua necessidade. O tempo ideal varia entre pessoas e tarefas. A regularidade e a qualidade do estudo são mais importantes do que seguir um cronograma rígido.

4. Pratique a recuperação ativa das informações.

Depois de ler um conteúdo, feche o material e tente explicar o que compreendeu. Responda a perguntas, faça exercícios ou registre as ideias principais sem copiar diretamente o texto. Essas práticas ajudam a verificar o que realmente foi aprendido.

5. Preserve o sono.

Evite que o uso de dispositivos ocupe o tempo necessário para dormir. Sempre que possível, estabeleça uma rotina noturna tranquila e reduza atividades digitais que prolonguem a hora de deitar.

6. Inclua atividades fora das telas.

Leitura impressa, brincadeiras, movimento, atividades manuais, conversas e convivência social oferecem experiências complementares à aprendizagem digital. Para crianças, essas oportunidades são especialmente importantes para o desenvolvimento integral.

7. Utilize a tecnologia como ferramenta, não como distração permanente.

Vídeos, aplicativos educativos e recursos digitais podem ser úteis quando apresentam conteúdo relevante e são acompanhados de reflexão, prática e participação ativa. O objetivo é fazer com que a tecnologia esteja a serviço da aprendizagem.

Essas medidas podem ajudar, mas não garantem a resolução de todas as dificuldades de concentração. Quando os problemas persistem ou comprometem significativamente a rotina, é importante investigar outros fatores envolvidos.

Quando procurar ajuda profissional?

É recomendável buscar orientação quando as dificuldades de concentração e organização são persistentes, prejudicam o desempenho escolar ou profissional ou vêm acompanhadas de alterações importantes no sono, no comportamento ou no bem-estar emocional.

A avaliação deve considerar a história da pessoa, as condições ambientais, os hábitos digitais e as possíveis causas das dificuldades.

A Psicopedagogia e a Neuropsicopedagogia podem contribuir para compreender questões relacionadas à aprendizagem e desenvolver estratégias de apoio dentro de seus respectivos campos de atuação. Quando necessário, esse trabalho pode ser articulado com profissionais de saúde e educação.

O mais importante é evitar explicações simplistas. Nem toda dificuldade de aprendizagem é causada pelo celular, assim como nem toda utilização de telas representa um problema.

Aprender em um mundo digital exige equilíbrio e intencionalidade

A tecnologia faz parte da vida contemporânea e pode ampliar o acesso ao conhecimento, facilitar a comunicação e oferecer novas possibilidades de aprendizagem.

Entretanto, aprender exige tempo para compreender, refletir, praticar e estabelecer relações entre informações. Quando as atividades digitais provocam interrupções constantes ou substituem experiências essenciais, é importante rever a maneira como são utilizadas.

O olhar psicopedagógico ajuda a compreender os processos de aprendizagem e a desenvolver estratégias que favoreçam a autonomia. A perspectiva neuropsicopedagógica amplia essa compreensão ao considerar as relações entre cognição, comportamento e ambiente.

O objetivo não é transformar a tecnologia em vilã, mas ajudar crianças, adolescentes e adultos a utilizar seus recursos de maneira consciente, equilibrada e compatível com suas necessidades.

Mais do que diminuir o tempo diante das telas, precisamos criar condições para que a atenção tenha espaço, a aprendizagem aconteça com qualidade e a tecnologia seja uma aliada do desenvolvimento humano.

Sobre o autor

Suedem Alceno Medeiros é psicopedagogo e neuropsicopedagogo, com atuação interdisciplinar voltada à compreensão das relações entre aprendizagem, cognição, comportamento e desenvolvimento humano.

Referências científicas

WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Guidelines on physical activity, sedentary behaviour and sleep for children under 5 years of age. Geneva: WHO, 2019. Disponível em: https://www.who.int/publications-detail-redirect/9789241550536

WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). WHO guidelines on physical activity and sedentary behaviour. Geneva: WHO, 2020. Disponível em: https://www.who.int/publications/b/55518

The Association between Screen Time and Attention in Children: A Systematic Review. Child Neuropsychology, 2022. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35430923/

How Is the Digital Age Shaping Young Minds? A Rapid Systematic Review of Executive Functions in Children and Adolescents with Exposure to ICT. 2025. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40426734/

Aviso: Este artigo tem finalidade informativa e educativa. Não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento individualizado por profissionais habilitados.

Este conteúdo tem caráter informativo e educativo. Ele não substitui uma consulta, avaliação, diagnóstico ou acompanhamento individual com profissional qualificado. Para orientações específicas sobre o seu caso, entre em contato com o profissional responsável pelo artigo.

Sobre o autor

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SUEDEM ALCENO MEDEIROS

PsicopedagogoAraguaína / TO

Posso ajudar crianças, adolescentes e adultos em questões relacionadas à aprendizagem, dificuldades escolares, desenvolvimento cognitivo, comportamento, organização, autonomia e aspectos psicomotores. O atendimento é individualizado, buscando compreender cada pessoa de forma integral e construir estratégias adequadas às suas necessidades.

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