A sensação de estar atrasado na vida e o peso de quem você acha que deveria ser
Entenda por que a sensação de estar atrasado na vida pode ser tão dolorosa e como olhar para sua história com mais compaixão pode ajudar a lidar com cobranças, comparações e expectativas sobre quem você acredita que já deveria ser.

A sensação de estar atrasado na vida me parece uma das angústias mais silenciosas que existem. É aquela impressão de olhar para a própria vida e pensar que, a essa altura, algumas coisas já deveriam ter acontecido. E eu mesma já vivi muito isso.
Durante muito tempo, eu tinha uma ideia bastante clara de como gostaria que a minha vida acontecesse. Imaginava a idade em que queria me casar, ter filhos, terminar a faculdade, conquistar minha independência e alcançar algumas outras coisas que, na minha cabeça, fariam parte de uma vida que estava dando certo. Só que a vida seguiu um caminho diferente daquele que eu tinha planejado. Algumas coisas aconteceram depois, outras de formas que eu não imaginava e algumas simplesmente não aconteceram. E, durante muito tempo, eu interpretei essa diferença entre o que eu havia imaginado e o que estava vivendo como atraso.
Com o tempo, comecei a olhar para a minha história de outra forma. Quando penso nas escolhas que fiz anos atrás, é muito fácil avaliá-las com a cabeça que tenho hoje. Hoje eu tenho outros recursos, outras experiências, mais maturidade e consigo enxergar possibilidades que naquela época talvez nem existissem para mim. Mas existe algo um pouco injusto em olhar para quem eu fui no passado e cobrar dela tudo aquilo que eu só aprendi depois. Quando olho para a minha história com mais honestidade, percebo que, com os recursos que eu tinha naquele momento, talvez não houvesse outro caminho possível. Hoje eu sei fazer algumas escolhas diferentes, mas só sei porque vivi tudo aquilo que vivi. Naquela época, eu simplesmente não sabia.
Perceber isso também me fez prestar atenção na maneira como eu falava comigo quando sentia que estava atrasada. Era quase como se existisse uma mãe extremamente crítica dentro de mim dizendo: “Você é burra”, “Você poderia estar muito melhor”, “Olha como você atrasou a própria vida”. Eu acreditava que precisava dessa cobrança para mudar, como se me tratar com dureza fosse a única maneira de não me acomodar. Só que, na prática, essa voz não me fazia caminhar mais rápido. Na maior parte das vezes, ela só fazia com que eu me sentisse ainda pior comigo mesma.
Depois de muita terapia e amadurecimento, comecei a experimentar uma pergunta diferente: e se, em vez dessa mãe crítica, eu tentasse ser uma mãe amorosa comigo? Não uma mãe que acha tudo certo, passa a mão na cabeça ou ignora os erros, mas uma mãe que entende que aquele filho ainda está aprendendo. Que consegue reconhecer quando algo precisa mudar sem transformar um erro em uma definição sobre quem ele é. Que corrige sem humilhar, acolhe sem deixar de orientar e consegue enxergar possibilidades mesmo quando as coisas não saíram como o esperado.
Curiosamente, foi essa mudança que começou a aliviar uma parte importante da minha angústia. Eu não parei de ver a vida das outras pessoas na internet e também não deixei de me comparar completamente. Às vezes ainda acontece. Mas comecei a perceber que talvez a comparação, sozinha, não fosse aquilo que mais me machucava. O que doía era olhar para a vida do outro e usar aquilo como uma espécie de prova de tudo o que eu acreditava que já deveria ter me tornado. Existia uma distância entre quem eu era e aquele “eu ideal” que eu havia construído. Uma versão de mim que já deveria ter alcançado determinadas coisas, estar vivendo certos momentos e ter a vida organizada de uma forma específica. E talvez uma das perguntas mais importantes tenha sido perceber de onde vinha essa régua. Quanto da vida que eu acreditava que deveria estar vivendo era realmente um desejo meu? E quanto tinha sido construído a partir das expectativas que fui acumulando sobre o que significa ter uma vida bem-sucedida?
Isso não significa que precisamos abandonar nossos planos ou fingir que não existem coisas que gostaríamos que fossem diferentes. Para mim, olhar para a própria história com mais compaixão nunca significou desistir de crescer. Na verdade, aconteceu justamente o contrário. Existe um paradoxo que eu gosto muito nisso tudo: foi quando deixei de acreditar que precisava me maltratar para mudar que comecei a conseguir caminhar de uma forma diferente. Quando passei a me tratar com mais compaixão, consegui continuar tentando, conquistar coisas, cumprir metas e lidar melhor com aquilo que ainda não tinha acontecido. A cobrança dizia que eu precisava melhorar. Porém, foi ter uma postura mais amorosa que realmente me deu condições para crescer e evoluir.
Pode ser que seja por isso que, quando alguém me diz que sente que está atrasado na vida, eu penso que existe uma pergunta anterior a “como faço para chegar mais rápido?”. Provavelmente pode-se perguntar: atrasado em relação a quê? À vida que você deseja construir hoje ou àquela versão da vida que, em algum momento, aprendeu que já deveria estar vivendo? Olhar para a própria história com gentileza não muda aquilo que aconteceu e também não significa deixar de assumir responsabilidade pelas escolhas que fazemos. Significa conseguir reconhecer que existe uma diferença entre responsabilidade e punição. Podemos olhar para aquilo que gostaríamos de fazer diferente sem precisar transformar cada escolha passada em uma prova de fracasso.
Se você se reconheceu em alguma parte desse texto, pode ser que experimentar olhar para a sua história com a mesma postura que teria diante de alguém que ama e que ainda está aprendendo a viver seja o que precise fazer. Às vezes, esse movimento começa sozinho. Em outros momentos, compreender de onde vieram essas cobranças, rever expectativas e construir uma relação diferente consigo mesmo também pode fazer parte de um processo de psicoterapia. Tudo bem, pode ser que você não esteja exatamente onde imaginou que estaria. Mas isso, por si só, não significa que chegou tarde à própria vida, a vida da qual você tem as rédeas.
Este conteúdo tem caráter informativo e educativo. Ele não substitui uma consulta, avaliação, diagnóstico ou acompanhamento individual com profissional qualificado. Para orientações específicas sobre o seu caso, entre em contato com o profissional responsável pelo artigo.
Sobre o autor
Ana Beatriz Gondim
Talvez você esteja lidando com ansiedade, se cobrando demais, enfrentando dificuldades nos relacionamentos ou tentando encontrar seu caminho em meio às mudanças e desafios da vida adulta. Na terapia, podemos compreender juntos o que tem acontecido, reconhecer padrões e construir novas formas de lidar com suas emoções, relações e escolhas, buscando uma vida mais alinhada ao que faz sentido para você.
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